Capítulo 1 – Cartas Suicidas

Capítulo 1 – Clara Siqueira: A Química das Pétalas e do Silêncio

(Uma carta escrita em ácido, flores e números primos)

I. A Origem do Silêncio

Clara Siqueira nasceu em 1989, em São Leopoldina, filha de um pastor que cuspia versículos como granadas e de uma enfermeira que silenciava surtos com seringas. Sua casa era uma guerra fria entre fé e farmacologia, e o amor se escondia atrás das portas dos armários trancados.

Aos 10, Clara sabia mais de tabela periódica do que de evangelhos. Aos 15, apaixonou-se por Marie Curie, por moléculas em espiral e por tudo o que podia ser dissolvido sem deixar vestígios. Aos 21, tornou-se professora de química, uma feiticeira de jaleco branco que falava de reações endotérmicas com brilho nos olhos e desprezo por domingos.

Ela morava sozinha num pequeno apartamento sobre uma farmácia de manipulação. Em vez de quadros, decorava as paredes com diagramas de ressonância e flores prensadas em vidros de laboratório. Seu único companheiro era o Caderno Vermelho, um fichário com manchas de ácido fluorídrico e poemas colados com fita isolante. Nele, guardava não fórmulas, mas feitiços.

II. Mariana Torres: A Aluna e o Abismo

Mariana sentava sempre no fundo, escondida sob o capuz do casaco de lã mesmo nos dias de sol. Tinha 17 anos, olhos encurvados como interrogações, e parecia feita de nervuras e silêncios. Lia Sylvia Plath com fúria. Desenhava forcas em folhas secas. Respondia questões químicas com precisão absurda, mas quando perguntada sobre si, silenciava.

Clara a notou pela primeira vez durante um experimento sobre combustão lenta. Mariana não reagia à chama, mas ao que ela representava. Observava o fogo com reverência, como quem enxerga um oráculo.

O que começou como tutoria virou admiração. O que era admiração virou anotações em folhas hexagonais. Bilhetes entre ácidos e álcalis. Um beijo, rápido e tenso, nos fundos do laboratório durante a faxina de fim de semestre. E depois outro. E outro.

Durante três meses, Clara passou a viver em função dos horários de Mariana. Comprava lanches que sabia que a garota gostava. Passava batom cor de vinho que Mariana elogiara num poema. Deu-lhe um livro sobre flores tóxicas, com a dedicatória:

“O lótus cresce no lodo. Mas e quando o lodo está dentro?”

Na última noite antes da queda, ficaram presas na escola por causa de uma tempestade. Clara destrancou a sala de química e preparou uma solução que brilhava no escuro. Mariana tirou o casaco, recitou Plath e perguntou:

- Professora… você me daria um nome novo, se pudesse?

Clara respondeu:

- Te chamaria de reação impossível.

III. O Escândalo e a Queda

Foi uma carta encontrada no estojo de Mariana que destruiu tudo. Um bilhete cifrado com hexágonos benzênicos em formato de flor. O pai da menina, advogado evangélico, rasgou a carta, convocou a direção da escola e denunciou Clara à polícia.

Clara foi afastada com escolta. Mariana, enviada às pressas para o interior do Tocantins, para viver com tios “moralmente corretos”. Os colegas se calaram. A escola apagou seu nome. A mãe de Clara, Celina, disse:

- Você sempre foi um erro de cálculo.

O pai, em um surto devocional, queimou seus livros no quintal. Clara não gritou. Só assistiu.

Ela parou de comer. De dormir. Passou a ouvir gravações invertidas de Torquato Neto, como se tentasse decifrar o mundo ao contrário. Enfiou-se em fórmulas, flores e falhas. Sumiu das redes. E escreveu no Caderno Vermelho uma equação:

HF + C₆H₁₀O₅ + 13h13 = ☠

IV. Entre Flores e Ecos

Clara foi vista pela última vez sentada em posição fetal num campo de flores às margens de uma estrada desativada. Vestia branco. Os olhos estavam abertos como provetas vazias. Ao redor, pétalas de ipê e folhas dispostas em círculo. Um símbolo químico desenhado com ácido no chão.

Em transe, murmurava coordenadas:

“-16.680105, -49.253489…”

(A universidade onde conheceu Mariana.)

Depois, sua voz inverteu:

“…9843529.-50108661-”

Como se o tempo tivesse quebrado.

Depois:

“Aokigahara…”

Um delírio? Uma convocação?

Ao seu lado, uma folha arrancada do Caderno Vermelho. Nela, escrito em código:

OHC + F + 13h31 =?

A mesma equação. Mas invertida. Ninguém soube o que vinha depois.

Exceto ela.

V. A Carta de Clara Siqueira

“Em nome do Pai, da Filha e da Síntese Orgânica… Amém.”

Mamãe,

Você dizia que fé era antídoto. Descobri que também é reagente. Misture fé com medo e silêncio e você tem uma explosão controlada. Ou descontrolada.

Papai,

Você me queria vidro de Becker. Eu virei lâmina de bisturi. Não me julgue por amar diferente. Você nunca amou nem igual.

Mariana,

Você foi meu composto mais raro. Minha reação mais pura.

Perdão. Eu não fui forte o bastante para te proteger da moral alheia.

Hoje, o HF queima menos que sua ausência.

Mas deixei pistas.

Se você conseguir me ler ao contrário… talvez ainda me encontre.

A vida não é uma neutralização. É combustão lenta.

E a minha consumiu todos os reagentes.

“Se um dia nos separarem, me procura na química do que ninguém vê.”

- Clara